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Corredor de adega medieval com abóbadas de pedra e tijolo, mesa de carvalho com taças e estantes de garrafas na penumbra

Na adega dos templários, o vinho ainda não virou museu

A adega dos templários, na Morávia, guarda quase 800 anos de vinho. Saiba o que a reforma mudou e quais uvas provar para entender a região.


Debaixo de Čejkovice, um vilarejo do sul da Morávia, na República Tcheca, se estende a adega dos templários: cerca de 650 metros de galerias de pedra e tijolo, dos quais uns 400 abertos à visita. Em 2026, o espaço passou por uma revitalização de cerca de 12 milhões de coroas tchecas e voltou ao noticiário internacional com a etiqueta de “900 anos”. A conta é generosa. Os cavaleiros templários chegaram à região na década de 1230, e a primeira menção escrita ao vilarejo é de 1248. São quase oito séculos de vinho no subsolo, o que já basta para impressionar sem arredondamento.

Uma reforma que tirou em vez de acrescentar

O enoturismo tem um vício conhecido: transformar história em cenário, com armaduras de fibra, tochas elétricas e trilha épica no corredor. O projeto do designer tcheco Petr Novague foi na direção contrária. A primeira etapa foi retirar acréscimos recentes e peças decorativas que escondiam a arquitetura original, até as abóbadas voltarem a ser o centro da visita.

O que entrou depois é declaradamente contemporâneo e não disputa atenção com a pedra. Vieram mesas maciças de carvalho, estantes de aço preto para o arquivo de garrafas, piso de terracota e uma iluminação pensada para revelar a textura das paredes. O único gesto simbólico forte é um bloco de arenito partido no formato da cruz templária, que funciona como escultura e dispensa fantasia.

Novague também desenhou uma garrafa nova para a cooperativa local, com silhueta inspirada na mesma cruz. É a parte do projeto mais próxima do marketing, mas mantém a coerência: a linguagem que guia a visita vai embora junto com o vinho.

O que a adega dos templários conta sobre a Morávia

Os templários ergueram uma fortaleza em Čejkovice e, junto com ela, começaram a escavar uma rede de adegas sem precedente nas terras tchecas. As galerias foram feitas em escala de produção: segundo o órgão oficial de turismo tcheco, o teto é alto o bastante para um homem a cavalo e a largura permite a passagem de carroças carregadas. Com a extinção da ordem, em 1312, o lugar trocou de dono várias vezes até passar, em 1624, para os jesuítas, que ampliaram as adegas.

O detalhe que muda a leitura do lugar vem do século 20. Em 1936, produtores do vilarejo fundaram uma cooperativa para processar e vender as próprias colheitas. Restabelecida depois da queda do regime comunista, ela reúne hoje cerca de 340 associados e continua vinificando uvas dos vinhedos ao redor. A adega dos templários, portanto, não é peça de museu. Tubulações de vinho correm pelas paredes medievais até as áreas de produção, e a visita acontece dentro de uma vinícola em plena atividade.

Quais uvas provar nos vinhos da Morávia

Colinas de vinhedos no sul da Morávia no fim da tarde, com cachos de uva escura em primeiro plano e um vilarejo ao fundo
Colinas de vinhedos no sul da Morávia no fim da tarde, com cachos de uva escura em primeiro plano e um vilarejo ao fundo

A Morávia concentra cerca de 96% dos vinhedos da República Tcheca, e Čejkovice fica na sub-região de Velké Pavlovice, uma das mais ensolaradas do país e conhecida pelos tintos. A estrela local é a Frankovka, nome tcheco da Blaufränkisch, a mesma uva que faz fama no Burgenland austríaco. Ao lado dela aparecem a Saint Laurent e a Zweigelt, e nos vinhos brancos se destacam a Welschriesling, a Pinot Gris e a aromática Pálava.

Para o leitor brasileiro, o obstáculo é prático: rótulos tchecos quase não chegam ao Brasil. O atalho é atravessar a fronteira no mapa. A Áustria, vizinha imediata, trabalha as mesmas uvas e tem presença bem maior por aqui. Um Blaufränkisch de taninos firmes e fruta escura dá uma boa ideia do que se bebe nas mesas de carvalho de Čejkovice, e um Grüner Veltliner, uva branca que divide com o Riesling o posto de mais plantada da Morávia, completa o retrato.

Quem planeja a viagem pode combinar o passeio pelas galerias com uma degustação guiada por sommelier, oferecida no próprio complexo. O que fica na memória, porém, é beber o vinho do vilarejo num corredor que guarda vinho há quase oito séculos, ao lado de gente que ainda vive dele. A reforma da adega dos templários acertou justamente por entender que esse era o atrativo principal, e que ele já estava pronto.

Este conteúdo é uma interpretação do material original. Para mais detalhes, consulte as fontes: Upscale Living Magazine, Visit Czechia e Newstream.

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